Beatriz Hierro Lopes

EYES

OLHOS

To speak so low no one can hear, to write so small no one can read, to empty my ears and my eyes so that I’ll be found gone into the ground I walk on. My absent self, buying porcelain houses for my mother. We collect houses, framed-up birds and begging buddhas who contemplate us beyond the bulging tenderness of a brass lamp polished by mother every Monday. We have neither houses nor wings. The infant Christ only has one leg and sleeps on the little pink velvet cushion he was given instead of straw. He’s not resting, he’s staring at us through his wide open, painted glass eyes; I was never allowed glass marbles for fear of my swallowing them; but I would never swallow the eyes of the injured infant. My soul hits the night and it’s only possible that I might have swapped it for some vitreous eyes and a two legged Christ. To cry so low everyone can hear, to speak so silently no one can sleep, to breathe so slowly even saints can wake up and angels can escape the skies. Which other way do I have to recreate your loneliness in mine?

Falar tão baixo que ninguém ouça, escrever tão pequeno que ninguém leia, esvaziar tanto os ouvidos e os olhos que me achem sumida no chão que piso. Meu eu ausente, comprando casas de porcelana para minha mãe. Coleccionamos casas, pássaros nas molduras e budas mendicantes, que nos olham além da ternura bojuda de um candeeiro em latão dourado a que a mãe passa o lustre todas as segundas. Não temos casas nem asas. Cristo menino é perneta e dorme na almofadinha de veludo rosado que lhe deram para fazer conjunto na vez das palhas. Não repousa, olha-nos de olhos bem abertos de vidro pintado; nunca pude ter berlindes, pois os adultos tinham medo que os engolisse; mas eu não engoliria os olhos do menino magoado. Embate na noite a minha alma e é possível que a tenha trocado por olhos vidrados a um cristo de duas pernas. Gemer tão baixo que todos ouçam, falar tão silenciosamente que ninguém possa dormir, respirar tão pausadamente que até santos acordem e anjos se evadam dos céus. Que outra forma tenho eu de recriar a tua solidão na minha?

© Translated by Ana Hudson, 2015
in É quase noite, 2013
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